Você acabou de chegar da maternidade.
O quarto finalmente está silencioso. Você coloca o bebê no berço, senta na cama e pensa:
“Agora ele dormiu.”
Cinco segundos depois vem um resmungo.
“Nhé…”
Você levanta correndo.
Olha o bebê.
Pega no colo.
E percebe que… ele nem acordou.
Se essa cena parece familiar, saiba que você não está sozinha.
Os primeiros dias com um recém-nascido costumam ser uma mistura de encantamento, cansaço e muitas dúvidas. Alguns bebês parecem dormir o tempo todo. Outros parecem nunca dormir. Uns choram bastante. Outros quase não fazem barulho.
A boa notícia é que muito do que assusta nessa fase faz parte da adaptação de um bebê que acabou de chegar ao mundo.
Neste guia, vamos entender como costuma ser o sono do recém-nascido nos primeiros dias, o que realmente é esperado e quais sinais merecem atenção.
Antes de tudo: seu bebê nem sempre acordou
Essa foi uma das maiores descobertas que fiz como mãe.
Com minha primeira filha, eu não fazia ideia de que recém-nascidos fazem barulho enquanto dormem.
Bastava um resmungo, uma careta ou um “nhé” baixinho que eu já corria para pegá-la no colo.
Só depois descobri que, muitas vezes, ela continuava dormindo.
Quando pensamos em alguém dormindo, imaginamos uma pessoa imóvel e silenciosa. Um recém-nascido é quase o oposto disso. Boa parte do tempo, ele está em um sono mais leve e ativo. Nessa fase, é comum:
- fazer caretas;
- sorrir;
- movimentar os olhos por baixo das pálpebras;
- mexer braços e pernas;
- respirar de forma um pouco irregular;
- resmungar ou emitir pequenos choramingos;
- fazer força;
- abrir parcialmente os olhos e fechá-los novamente.
Tudo isso pode acontecer sem que o bebê realmente tenha despertado.
Se o bebê fizer um pequeno resmungo ou alguns movimentos, experimente observar por alguns segundos antes de pegá-lo no colo. Às vezes ele simplesmente volta a dormir sozinho. Outras vezes, ele realmente acordou e vai precisar de você. Com o tempo, você começa a perceber essa diferença.
Hoje, se pudesse voltar aos meus primeiros dias de maternidade, provavelmente esperaria alguns segundos antes de pegá-la no colo. Muitas vezes ela simplesmente estava passando de uma fase do sono para outra.
Isso não significa deixar um bebê chorando por longos períodos. Significa apenas observar por alguns instantes antes de concluir que ele acordou.
O reflexo de Moro também pode assustar
Outro motivo comum para despertares é o reflexo de Moro.
Ele é um reflexo natural dos recém-nascidos. Às vezes parece que o bebê levou um susto: abre os braços rapidamente, estica os dedos e, em seguida, traz os braços de volta para perto do corpo.
Isso pode acontecer espontaneamente ou quando há uma mudança de posição, um barulho mais intenso ou a sensação de “queda” ao ser colocado no berço.
É completamente esperado nos primeiros meses de vida. Alguns bebês quase não parecem se incomodar com esse reflexo. Outros acordam praticamente todas as vezes. Mais uma vez, isso faz parte das diferenças individuais entre os bebês.
Como costuma ser o sono do recém-nascido
Se existe uma palavra para definir o sono de um recém-nascido, ela é fragmentado.
Nos primeiros dias de vida, a maior parte dos bebês alterna entre dormir, mamar e voltar a dormir.
É completamente diferente do sono de um adulto.
Nessa fase, ainda não existe uma diferença clara entre dia e noite. O organismo do bebê ainda está amadurecendo e seu relógio biológico levará algumas semanas (e até meses) para funcionar de forma mais organizada.
Por isso, é esperado que ele:
- durma muitas horas ao longo do dia;
- acorde frequentemente para mamar;
- faça cochilos curtos e longos sem muito padrão;
- tenha períodos acordado relativamente pequenos.
Se você estava imaginando uma rotina organizada logo na primeira semana, provavelmente vai se frustrar.
E tudo bem.
Seu bebê ainda está aprendendo como funciona o mundo.
Por que alguns bebês parecem só dormir?
É comum ouvir mães preocupadas porque o bebê “só dorme”.
Na maioria das vezes, isso faz parte da adaptação dos primeiros dias.
O nascimento é um evento intenso para o bebê. Além de todo o esforço do parto, ele acabou de sair de um ambiente escuro, aquecido, silencioso e constante para um mundo cheio de luzes, sons, temperaturas diferentes e estímulos completamente novos.
Dormir faz parte dessa adaptação.
Além disso, o estômago do recém-nascido ainda é muito pequeno. Em vez de grandes mamadas espaçadas, ele precisa se alimentar várias vezes ao longo do dia. Por isso, o ciclo costuma ser simples:
mama → dorme → acorda → mama novamente.
É justamente por esse motivo que o pediatra pode orientar acordar o bebê para mamar caso ele passe muitas horas dormindo nos primeiros dias, especialmente até que a amamentação esteja estabelecida e o ganho de peso esteja adequado.
…e por que alguns parecem nunca dormir?
Aqui foi onde eu mais sofri.
Minha primeira filha parecia acordar o tempo todo.
Durante muito tempo achei que aquele era simplesmente o jeito dela.
Depois descobri que ela não estava conseguindo mamar de forma eficiente.
Ela cansava durante a mamada, não se alimentava o suficiente e acabava acordando pouco tempo depois com fome novamente.
Hoje eu faria diferente.
Em vez de procurar técnicas para fazê-la dormir, eu investigaria primeiro se ela estava conseguindo mamar bem.
Fome costuma ser uma das primeiras hipóteses quando um recém-nascido parece nunca descansar.
Mas não é a única.
Alguns bebês têm um temperamento naturalmente mais sensível. Outros despertam com qualquer mudança de superfície. Alguns parecem se adaptar rapidamente ao ambiente. Outros precisam de muito mais contato e colo.
Nem tudo depende do que os pais fazem.
Cada bebê também chega ao mundo com características próprias.
Isso não significa que você está fazendo algo errado.
Sono e amamentação praticamente caminham juntos
É muito difícil falar sobre sono sem falar sobre alimentação.
Nos primeiros dias de vida, essas duas coisas estão profundamente conectadas.
O peito não serve apenas para alimentar.
Ele também ajuda a regular o bebê.
Ao mamar, o recém-nascido encontra calor, cheiro, contato, sucção e segurança. Tudo isso contribui para que ele se acalme.
Mesmo quando a produção de leite ainda está aumentando, muitos bebês encontram conforto na própria experiência de mamar.
Por isso, é esperado que muitos recém-nascidos adormeçam durante a mamada.
Se você percebe que seu bebê parece insatisfeito após praticamente todas as mamadas, sente muita dor para amamentar ou tem dúvidas sobre a pega, vale procurar ajuda o quanto antes.
Muitas dificuldades são muito mais fáceis de resolver nos primeiros dias do que semanas depois.
Seu bebê ainda não sabe que existe dia e noite
Uma pergunta muito comum é:
“Como faço meu bebê entender que a noite é para dormir?”
A resposta é: você não faz.
Pelo menos, não imediatamente.
O relógio biológico do recém-nascido ainda está amadurecendo.
Nos primeiros dias, ele não distingue claramente o dia da noite.
Isso acontece aos poucos, conforme seu organismo amadurece e recebe pistas do ambiente.
Uma dessas pistas é a luz natural.
Por isso, vale a pena:
- abrir as janelas da casa durante o dia;
- deixar o ambiente claro enquanto vocês estiverem acordados;
- aproveitar alguns minutos ao ar livre, quando possível.
Se você mora em uma casa com quintal, o quintal já conta.
Se estiver se sentindo bem, um passeio curto na pracinha também pode ser uma ótima ideia.
Nas primeiras semanas, costuma ser mais prudente evitar ambientes fechados e muito cheios de pessoas, tanto pela maior circulação de vírus quanto pelo excesso de estímulos.
E aqui vai um lembrete que quase ninguém faz:
Você também precisa ver a luz do dia.
Depois do parto, é muito comum a mãe passar dias praticamente dentro de um quarto.
Tomar um pouco de sol, respirar ar fresco e sair alguns minutos de casa pode fazer bem para vocês dois.
Não espere que isso faça seu bebê dormir a noite inteira.
Pense nisso como um pequeno investimento no desenvolvimento do ritmo biológico dele.
Rotina? Ainda não.
Nos primeiros dias, eu não tentaria colocar um recém-nascido em uma rotina rígida.
Também não ficaria contando cada soneca ou tentando seguir horários exatos.
Seu bebê ainda está aprendendo a viver fora do útero.
E você ainda está aprendendo a conhecer o seu bebê.
Em vez de controlar horários, procure observar padrões.
Ele costuma demonstrar sono de que forma?
Quanto tempo costuma ficar acordado antes de querer dormir novamente?
Como costuma pedir colo?
Como demonstra fome?
Essas respostas valem muito mais do que qualquer tabela pronta encontrada na internet.
Cada bebê é único.
Isso não significa que “vale tudo” ou que não existam recomendações baseadas em evidências.
Significa apenas que, dentro do que é esperado para um recém-nascido saudável, existe uma enorme variação de comportamentos.
Você não vai “acostumar mal” um recém-nascido
Essa talvez seja uma das maiores preocupações de quem acabou de ter um bebê.
“Será que vou acostumar no colo?”
“Será que ele vai querer só peito para dormir?”
Nos primeiros dias de vida, essa não deveria ser sua principal preocupação.
Seu bebê passou cerca de nove meses em um ambiente aquecido, apertadinho, em constante movimento e ouvindo os batimentos do seu coração.
É natural que ele estranhe o berço, o silêncio e o espaço.
Colo, contato, peito e proximidade fazem parte dessa transição.
Isso não significa que todo recurso seja recomendado em qualquer situação. Por exemplo, as recomendações atuais de sono seguro orientam que o bebê durma de barriga para cima, em um colchão firme e sem objetos soltos no berço.
Ainda assim, acredito que vale compartilhar uma experiência pessoal.
Em alguns momentos, usei recursos para deixar minhas filhas mais contidas enquanto estavam comigo e sob supervisão constante. Fiz essa escolha consciente das recomendações de sono seguro e dos riscos envolvidos.
Não estou dizendo que essa seja a melhor escolha para todas as famílias.
Estou apenas sendo transparente sobre o que aconteceu na minha casa.
Meu compromisso aqui é compartilhar tanto as melhores evidências disponíveis quanto a realidade de quem viveu essa fase.
Quando vale procurar ajuda
Embora despertares frequentes e choros façam parte da vida de um recém-nascido, alguns sinais merecem avaliação médica.
Procure atendimento imediatamente se o bebê apresentar:
- febre (temperatura de 38 °C ou mais);
- dificuldade para respirar;
- pele arroxeada ou episódios em que parece parar de respirar;
- dificuldade importante para acordar ou mamar;
- recusa persistente das mamadas;
- número de fraldas molhadas muito abaixo do esperado para a idade;
- choro inconsolável acompanhado de sinais de doença, como sonolência excessiva, moleza ou aparência muito diferente do habitual.
Na dúvida, prefira conversar com o pediatra.
Você conhece seu bebê melhor do que qualquer pessoa.
Se algo parece realmente diferente, vale investigar.
Se eu pudesse voltar aos meus primeiros dias…
Hoje eu me preocuparia menos em encontrar a técnica perfeita para fazer minha filha dormir.
E passaria mais tempo tentando entender o que ela estava tentando me comunicar.
Descobriria antes que muitos resmungos não eram despertares.
Perceberia mais cedo que parte das dificuldades vinha da amamentação.
Aceitaria com mais tranquilidade que recém-nascidos precisam de muito colo, muito contato e muita presença.
Os primeiros dias não são uma prova de que você precisa passar.
São o início de uma relação entre duas pessoas que ainda estão aprendendo uma sobre a outra.
Seu bebê não espera que você saiba tudo.
Ele só precisa que você continue aprendendo junto com ele.
Resumindo
Se existe uma única ideia que eu gostaria que você levasse deste artigo, é esta:
Nos primeiros dias, não tente ensinar um recém-nascido a dormir. Tente entender por que ele dorme (ou acorda) da forma como dorme.
Essa mudança de perspectiva diminuiu muito a minha ansiedade como mãe.
Espero que diminua a sua também.
